Saúde emocional em tempos de pandemia

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O mundo é mutante, mas há momentos de maior aceleração. A humanidade já passou por várias pandemias que mudaram o rumo da história. A COVID-19  foi a primeira na era da informação, e por esta razão veio acompanhada de outros efeitos colaterais, como a “infodemia”, que trouxe coisas positivas e negativas.

Vamos voltar no tempo e rever um pouco da história das pandemias. 

No ano 430 antes da era Cristã aconteceu a Peste do Egito (surto causado pela bactéria do gênero Rickettsias, conhecida como Febre Tifóide ou Tifo). Nos séculos 2 e 3 tivemos a Peste Antonina (anos 165 a 180) e a Peste Cipriano (anos 250 a 271), causadas pelo vírus da varíola. No século 6, a Praga de Justiniano (ano 541), causada pela bactéria da peste bubônica, Yersinia pestis, atingiu 40% dos habitantes de Constantinopla e chegou a matar cerca de 25 a 50 milhões de pessoas. 

No século 14 (anos 1343 a 1353) a Peste Negra, também causada pela bactéria da peste bubônica, assolou a Europa, Ásia e África, matando cerca de 100 milhões de pessoas, correspondendo a um terço da população europeia e cerca de 20% da população mundial na época. Teve seu início na Ásia, viajando pela Rota da Seda e pelos barcos genoveses, sendo transmitida por pulgas dos ratos até a Europa.

Em muitas guerras, os germes mataram mais do que as armas! 

Nos séculos 15 e 16 durante as lutas entre cristãos e muçulmanos, o Tifo matou milhares de pessoas e no século 19 teve um papel importante na derrota de Napoleão na guerra com a Rússia.

Durante o “descobrimento” das Américas, houve literalmente uma colonização por homens e germes. Os europeus introduziram várias epidemias. Nos séculos 16 e 17 metade da população nativa da América Espanhola foi dizimada pelo vírus da varíola e do sarampo, matando 2 milhões de nativos. 

Nos séculos 19 e 20 a bactéria Vibrio cholerae ocasionou várias epidemias e pandemias. A primeira (anos 1816 a 1826) foi na Ásia, atingindo a Índia, China e a região do Mar Cáspio. A segunda (anos 1829 a 1851) foi na Europa e América do Norte. A terceira (anos 1852 a 1860) na Rússia, matando mais de um milhão de pessoas. A quarta (anos 1863 a 1875) na Europa e África. A quinta (ano 1866) na América do Norte. A sexta (ano 1892) na Alemanha, causando cerca de 10 mil mortes. A sétima (ano 1899 a 1923) novamente na Rússia. A oitava na Indonésia (ano 1961), Bangladesh (ano 1963), Índia (ano 1964) e antiga União Soviética (ano 1966). Esta bactéria ainda tem causado surtos em países em desenvolvimento, como no Haiti em 2010, no nordeste do Brasil e no Iêmen, com 40 mil mortes em 2019.

Pandemias de gripe

No século 16 foi registrada a primeira pandemia de gripe, causada pelo vírus Influenza. Iniciando-se na Ásia (ano 1580), e se disseminando para a África, Europa e América do Norte. No século 18, iniciou-se na Rússia (anos 1729 a 1733), e se disseminou para a Europa. No século 19, a pandemia da China (anos 1830 a 1833) se espalhou para as Filipinas, Índia, Indonésia, Rússia, Europa e América do Norte. A Gripe Asiática (anos 1889 a 1892), causada pelo subtipo H2N2, se iniciou na Rússia e atingiu a América do Norte, América do Sul, Índia e Austrália. A pandemia de 1898-1900, causada pelo vírus A/H3, atingiu a Europa, Austrália, América do Norte, Japão e ilhas do Pacífico. 

No século 20, a Gripe Espanhola (anos 1918 e 1919), causada pelo vírus H1N1, surgiu nas tropas dos Estados Unidos no fim da Primeira Guerra Mundial, atingindo todos os continentes. Foi uma pandemia devastadora. Em seis meses, morreram 25 milhões de pessoas, sendo 17 milhões na Índia, 500 mil nos Estados Unidos e 200 mil no Reino Unido. Acredita-se que cerca de 25% da população mundial foi infectada e morreram cerca de 50 milhões de pessoas. Chegou ao Brasil pelos passageiros de um transatlântico vindo da Europa, que desembarcaram em Recife, Salvador e Rio de Janeiro. A doença desapareceu um ano e meio depois.

A Gripe Asiática (anos 1957 e 1958), causada pelo vírus H2N2, se iniciou na China e matou cerca de 70 mil pessoas nos Estados Unidos. A Gripe de Hong Kong (ano 1968) também se iniciou na China e se espalhou para Hong Kong, e chegou aos Estados Unidos através dos soldados que lutaram na Guerra do Vietnã. Se disseminou para a Europa, América do Sul e África do Sul, matando 1 milhão de pessoas.

A Gripe Aviária, causada pelo H5N1, ficou restrita a aves. Foi identificada na Itália por volta de 1900, mas atualmente se concentra no sudeste asiático, Turquia, Romênia e Inglaterra. Em 2004, o vírus foi encontrado em pássaros no Vietnã.

A Gripe Suína (Gripe A), causada pelo vírus H1N1, era restrita a porcos, até que em 2009 foi identificado um surto da doença no México, virando uma pandemia que infectou entre 700 milhões e 1,7 bilhão de pessoas, em cerca de 200 países, ocasionado 200 mil mortes. O nome foi alterado para Gripe A pela OMS.

Coronavírus

Os coronavírus habitam várias espécies de animais. Da família, sete tipos afetam os seres humanos. Eram considerados vírus inofensivos até que em 2003 ocorreu um surto na China da chamada Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS), uma forma nova e altamente contagiosa de pneumonia causada por um coronavírus (SARS-CoV) que acometeu mais de 8 mil pessoas em vários países e matou 800 indivíduos. Contudo, desde 2004 nenhum novo caso foi notificado no mundo. Não se tornou uma pandemia.

Em 2012 apareceu na Arábia Saudita um novo surto de Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS) e o coronavírus recebeu o nome de MERS-CoV. Ao contrário da SARS, a MERS ainda está presente no Oriente Médio e em casos isolados na Europa e na América do Norte. Cerca de 35% dos atingidos foram a óbito.

O sétimo e último membro da família apareceu no fim de 2019, em Wuhan, na China. Por ser muito similar ao SARS-CoV, foi chamado de SARS-CoV-2, agente causador da COVID-19.

Em março de 2020 foi declarada como pandemia o surto de COVID-19 pela Organização Mundial da Saúde. 

A COVID-19 atingiu até agora (fevereiro de 2022) cerca de 400 milhões de pessoas e levou mais de 5,75 milhões de vidas, sendo cerca de 900 mil casos nos Estados Unidos, mais de 600 mil no Brasil e cerca de 500 mil na Índia.

Para acompanhar os números da pandemia, clique aqui.

E o impacto na saúde emocional?

A pandemia vem acompanhada de vários fatores estressores, como a perda de entes queridos, complicações da doença, isolamento, problemas de acesso à assistência médica, informações contraditórias pela politização do tema, conflitos familiares, entre outros.

O isolamento físico leva ao estresse de restrição, decorrente da falta de liberdade de ir e vir. Para muitas pessoas, o estresse familiar do fim de semana invadiu a semana, pois o número de horas de convívio dentro de casa aumentou durante a quarentena, o que piora relações disfuncionais.

Além do isolamento físico, pode vir o isolamento social, que ocorre quando não há comunicação nem mesmo pela internet.

A pandemia na “era da informação” tem características únicas, com os seus prós e contras. A tecnologia tem o poder de eliminar distâncias e trazer pra perto, pra dentro de casa, nossos amigos e familiares, e até mesmo clientes, colegas de trabalho e o chefe.

O acesso à informação e a capacidade de interagir com pessoas pode ser um fator protetor ou um fator de risco para a saúde mental.

Muitas profissões, empregos e negócios foram afetados. A insegurança financeira aumentou para alguns e diminuiu para outros.

Em paralelo a pandemia, temos uma infodemia. As pessoas recebem diariamente uma quantidade absurda de informações, gerando preocupação constante. São muitas horas com o foco no problema, levando ao efeito nocebo, que é um efeito negativo psicossomático, baseado na auto sugestão negativa.

Temos uma conjunção de fatores estressores! Além do COVID-19, estamos, portanto, diante de uma pandemia de fatores estressores.

Quando os fatores estressores são maiores do que os protetores, entramos no modo de estresse. O nosso cérebro, mente e corpo são alterados e nos colocam em estado de alerta. O problema é que, dependendo da intensidade e duração, irá levar a maior vulnerabilidade e ao adoecimento. Além disso, doenças crônicas já existentes ficam descompensadas, sejam elas físicas ou mentais.

Precisamos de resiliência e buscar o equilíbrio no meio da pandemia, com saúde emocional.